terça-feira, 27 de outubro de 2015

Por que os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável interessam?


No dia em que representantes de Estado de todo o mundo se reúnem para discutir o futuro do planeta, Helen Clark cita desafios como erradicação da pobreza e fome em artigo


25 Setembro 2015 - do PNUD

Nesta semana, mais de 150 líderes mundiais virão a Nova York participar da Cúpula das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável 2015, onde uma agenda ambiciosa será adotada: os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

As agendas globais interessam? Sim, elas interessam.

Os objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) foram criados para enfrentar as mais difíceis questões do desenvolvimento à época – como a erradicação da pobreza e a fome; levar todas as crianças às escolas; virar o jogo na questão do HIV/AIDS, malária e outras doenças; e reduzir a mortalidade infantil, de crianças e recém-nascidos.

Houve avanço significativo no progresso nas áreas-alvo dos ODM – progresso que teria sido improvável se não houvesse foco, financiamento e ação em torno dos objetivos.

Ainda que tenha muito trabalho incompleto em relação aos ODM, existem outros grandes desafios para a nova agenda de desenvolvimento global.

Enquanto o objetivo de reduzir pela metade a proporção de pessoas vivendo na extrema pobreza até 2015 foi atingido, não é nada divertido estar na outra metade – os chamados “bottom billion”, para muitos dos quais a vida praticamente não mudou em muitos aspectos.

Da mesma forma, a pobreza infantil está crescendo em oito dos 28 países da União Europeia – e está relacionada, segundo a Organização Internacional do Trabalho, a níveis decrescentes de benefícios a mães e crianças. A era de austeridade não tem sido gentil aos programas de proteção social em muitos países.

A desigualdade de gênero continua disseminada – apesar do fato de que as sociedades são as mais prejudicadas se falharem em não aproveitar o potencial de metade da população. Onde mulheres são “o que olhos não veem, o coração não sente”, “desempoderadas” e subrepresentadas nos círculos decisórios, ir ao encontro das necessidades delas não é uma prioridade.

O ritmo acelerado de degradação ambiental está destruindo o clima e outros ecossistemas dos quais dependem a sobrevivência e o bem-estar humanos. A perda de espécies mina os meios de subsistência, a saúde e a segurança alimentar e da água. Enquanto o dano causados aos ecossistemas naturais afetam todos nós, afeta principalmente os mais pobres e mais vulneráveis.

Não pode haver desenvolvimento sustentável sem paz e estabilidade – infelizmente, o mundo enfrenta agora um grande déficit nesse aspecto.

É vital trabalhar para reduzir a demanda de apoio humanitário, investindo na construção de sociedades mais inclusivas e pacíficas. A nova agenda global pede acesso à justiça para todos, para instituições responsáveis, inclusivas e efetivas em todos os níveis, e ações sérias para enfrentar a desigualdade.

Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio são metas universais, que se aplicam a países em todos os estágios de desenvolvimento.

Essa agenda garante que o desenvolvimento sustentável no século 21 não seja algo que acontece apenas a outra pessoa, em outro lugar. Todos nós temos a nossa parte – e todo país tem que trabalhar para avançar nesse sentido.

Mas as melhores agendas não passam de mais palavras em papéis, a menos que possam ser implementadas.

A boa notícia é que o nosso mundo tem mais riqueza, mais conhecimento e mais tecnologia à disposição do que jamais teve. Os desafios que encaramos são, em sua maioria, causados pelo ser humano. Podemos enfrentá-los, mas não se continuarmos fazendo as mesmas coisas e esperando resultados diferentes.

Ajustes radicais são necessários no modo em que vivemos, trabalhamos, produzimos, consumimos, geramos nossa energia, nos transportamos e planejamos nossas cidades. Temos capacidade a ser desenvolvida. Governança a ser melhorada. Amplas mudanças de política, legislação e regulação são necessárias. Um comprometimento com a paz duradoura e estabilidade baseado em sociedades pacíficas e inclusivas é essencial.

Forte liderança em todos os níveis é necessária para prever e conceber um mundo melhor com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável.

Primeiramente, é preciso liderança para obter o financiamento necessário. Dinheiro não é tudo, mas com certeza ajuda, inclusive por meio da Assistência Oficial para o Desenvolvimento.

Em segundo lugar, amplas coalizões de líderes são necessárias. Certamente, governos agindo isoladamente não podem atingir as metas concebidas na nova agenda global. A liderança deles é vital, mas insuficiente – uma liderança mais ampla também é necessária. Isso inclui a liderança da sociedade civil – por meio de ONGs, cientistas, pesquisadores e academia; e de governos locais e do setor privado também.

Em terceiro, a liderança nunca foi tão necessária no sistema multilateral como agora, inclusive do próprio PNUD. Nosso trabalho é ajudar países a erradicar a pobreza, e fazer isso de uma maneira que, simultaneamente, reduza a desigualdade e a exclusão, e evite arruinar o ecossistema do qual a vida depende.

Os novos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável orientarão o desenvolvimento para os próximos quinze anos, oferecendo uma oportunidade de atender aspirações globais dos cidadãos para um futuro mais pacífico, próspero e sustentável.

No entanto, estaremos nos esforçando para atingir os Objetivos em um momento em que a instabilidade é a nova regra. A realidade do mundo em que vivemos deve ser reconhecida, e muito antes, proativa, e mais investimentos preventivos devem ser feitos no desenvolvimento de risco antecipado:

As desigualdades crescentes e a discriminação descontrolada que enfraquecem a coesão social precisam ser combatidas de frente;

A degradação do meio ambiente precisa ser detida;

A espiral de conflitos, instabilidade e de crises precisa ser interrompida, e estratégias efetivas baseadas na construção de resiliência necessitam ser adotadas como meios de enfrentar crises prolongadas.

Se a comunidade global, coletivamente, está preparada para avançar no desafio de atingir os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, aí, então, haverá uma chance de se alcançar o desenvolvimento sustentável – e, com ele, melhores perspectivas para as pessoas e o planeta.

Emergências humanitárias criadas por guerras e conflitos estão sobrecarregando a capacidade de resposta da comunidade internacional. Os gastos com assistência humanitária triplicaram na última década. No ritmo atual, nunca haverá dinheiro suficiente para atender as necessidades vitais para assistência.

Nossa geração é a última que pode evitar os piores efeitos na mudança global do clima. Uma ação adiada significa agir tarde demais. Nossa geração é também a primeira que pode erradicar a pobreza extrema e garantir um futuro mais esperançoso para todos. Pois essa liderança destemida de todos nós é necessária.

Helen Clark, Administradora mundial do PNUD


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